Em lavouras de café atingidas por granizo ou geada, as semanas seguintes ao evento exigem atenção redobrada, pois esse é um dos cenários em que a mancha-de-phoma costuma se manifestar.
Neste conteúdo, você vai entender quais fatores favorecem a doença, quais sintomas observar em folhas, frutos e ramos e como estruturar um programa de manejo que integra fungicidas, nutrição e monitoramento.
Ficha rápida: mancha-de-phoma no café
| Agentes causais | Phoma tarda (principal) e P. costarricensis |
| Classificação | Fungos, ordem Pleosporales, família Didymellaceae |
| Partes atacadas | Folhas novas, brotações, botões florais, frutos e ramos |
| Fatores predisponentes | Ventos fortes, geada, granizo e outros ferimentos mecânicos |
| Condições favoráveis | Temperaturas amenas (15 °C a 20 °C), molhamento foliar prolongado, umidade elevada e regiões de maior altitude |
| Sintomas característicos | Lesões escuras e irregulares nas bordas das folhas novas, com encurvamento, e seca de ponteiros |
| Período crítico | Pré-florada e pós-floradaaté a fase de chumbinho |
| Manejo | Quebra-ventos, fungicidas protetores e sistêmicos registrados, nutrição equilibrada e monitoramento |
Principais pontos
- A mancha-de-phoma ataca principalmente tecidos jovens, como brotações, folhas novas e botões florais. Ferimentos causados por ventos fortes, granizo e geada facilitam a infecção e agravam os surtos.
- Lesões escuras e irregulares nas bordas das folhas novas, com encurvamento do limbo e seca de ponteiros, compõem o quadro típico da doença. A observação de picnídios com lupa auxilia o diagnóstico.
- A pré e a pós-florada, até a fase de chumbinho, formam a janela mais crítica para o programa preventivo, além da resposta a eventos climáticos de risco.
- Nutrição equilibrada,com atenção ao cálcio, ao potássio e ao excesso de nitrogênio, contribui para reduzir a intensidade da doença.
- Em caso de dúvida em relação à cercosporiose, a diferenciação precisa exige atenção ao padrão da lesão e, quando necessário, confirmação laboratorial.
O que é a mancha-de-phoma e qual é o agente causal
Antes de falar em sintomas e manejo, é importante entender de onde vem a doença. Também é importante compreender como os fatores climáticos e os ferimentos influenciam o desenvolvimento da doença na lavoura.
Agente causal e relação com Phoma costarricensis
A mancha-de-phoma do café é causada principalmente pelo fungo Phoma tarda(sinônimo Ascochyta tarda), da ordem Pleosporales, família Didymellaceae. Por isso, a doença também é conhecida como mancha-de-ascochyta.
Phoma costarricensis também está associada à doença no Brasil e causa sintomas semelhantes. Por isso, a identificação da espécie depende de análise laboratorial.
As duas espécies produzem lesões necróticas e atacam preferencialmente tecidos jovens, com infecção facilitada por ferimentos.
Por que a phoma é considerada uma doença oportunista
A mancha-de-phoma ataca preferencialmente os tecidos jovens do cafeeiro. Os ferimentos, porém, facilitam a penetração do fungo e aceleram o avanço da doença.
Entre as principais causas desses ferimentos estão os ventos fortes, o granizo, a geada e os danos mecânicos.
Isso ajuda a explicar por que lavouras em regiões de maior altitude são particularmente vulneráveis: a combinação de temperaturas amenas, alta umidade e exposição a ventos fortes cria, nessas áreas, um ambiente favorável à doença

Como identificar a mancha-de-phoma no campo
O diagnóstico correto começa pela observação atenta de folhas, frutos e ramos. A phoma pode se manifestar de formas diferentes conforme a parte da planta afetada, e é facilmente confundida com outras doenças foliares.
Sintomas nas folhas
Os sintomas aparecem principalmente nas folhas novas dos ponteiros, na forma de manchas escuras e irregulares que costumam começar pelas bordas do limbo.
Com a evolução, a folha fica enrugada, se encurva e pode apresentar rachaduras, sintoma que pode ser confundido com a deficiência de boro. As lesões têm tamanho variável e podem atingir cerca de 2 cm de diâmetro.
Com o auxílio de lupa, é possível observar sobre as lesões pequenas pontuações salientes, os picnídios, que são as estruturas reprodutivas do fungo e auxiliam o diagnóstico. Sintomas nos frutos e ramos: a seca de ponteiros
Nos frutos, a doença se manifesta como lesões escuras que afundam à medida que avançam, podendo causar a queda de flores, a mumificação e a queda dos frutos em fase de chumbinho, além de má granação e perda de qualidade da bebida.
Nos ramos, as lesões escuras progridem pelo tecido e podem evoluir para cancros que matam a extremidade do ramo, quadro conhecido como seca de ponteiros. É um dos sintomas mais característicos e economicamente relevantes da doença, já que compromete diretamente a capacidade produtiva dos ramos afetados nas safras seguintes.
Um ponto importante para o diagnóstico de campo é a diferenciação em relação à cercosporiose. As lesões de cercosporiose costumam ser circulares, com centro cinza-claro, anel castanho e halo amarelo evidente. Já as lesões de mancha-de-phoma são escuras e irregulares, concentram-se nas folhas novas dos ponteiros e costumam começar pelas bordas, provocando encurvamento da folha.
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Condições que favorecem a epidemia
A phoma não age sozinha: ela depende de uma combinação específica de eventos climáticos e condições ambientais para se espalhar de forma agressiva pela lavoura. Conhecer esses gatilhos é o que permite antecipar o risco em vez de apenas reagir a ele.
Ventos fortes, granizo e geada: os principais fatores predisponentes
Os ventos fortes, frios e constantes estão entre os fatores que mais favorecem a mancha-de-phoma, pois reduzem a temperatura e causam ferimentos nas folhas.
A geada e o granizo seguem a mesma lógica: ao provocar necrose e lesões físicas em folhas, ramos e frutos, abrem portas de entrada para o fungo.
Por essa razão, a aplicação preventiva de fungicida antes de eventos climáticos de risco já é uma prática consolidada nas regiões de altitude. Ela funciona como uma forma de reduzir a janela de vulnerabilidade da lavoura.
Condições climáticas que favorecem a infecção
Além dos ferimentos, algumas condições climáticas específicas favorecem diretamente a infecção:
- Temperaturas amenas, entre 15 °C e 20 °C, faixa que favorece a infecção pelo fungo, principalmente quando associada a longos períodos de molhamento foliar.
- Umidade relativa elevada, neblina e formação de orvalho por períodos prolongados.
- Chuvas frequentes de baixa intensidade, que mantêm o molhamento foliar por mais tempo, uma condição especialmente crítica para a infecção.Lavouras situadas em regiões de maior altitude, onde temperaturas amenas e alta umidade são mais frequentes.
Surtos também podem ocorrer em altitudes menores, em lavouras expostas a ventos fortes, o que reforça a importância de avaliar a exposição da lavoura, e não apenas a altitude isolada.
Como montar o programa de manejo
Um programa de manejo integradocontra a phoma não se resume à aplicação de fungicida. Ele envolve proteção química no momento certo, nutrição equilibrada e monitoramento constante, já que a doença explora justamente os pontos fracos deixados por outros estresses na lavoura.
Manejo preventivo: quando e como aplicar fungicida
O controle químico preventivo pode combinar fungicidas protetores, como os cúpricos, e sistêmicos de diferentes grupos químicos registrados para a doença, com alternância de modos de ação para reduzir o risco de resistência.
A referência técnica mais consistente para o momento de aplicação é o período de pré e pós-florada, com aplicações mantidas até que todos os frutos atinjam a fase de chumbinho, já que o cafeeiro apresenta várias floradas. Nesse momento, botões florais e frutos jovens estão mais vulneráveis.
Além desse momento, eventos climáticos de risco pedem reforço pontual: após geada ou granizo, o recomendado é aplicar o quanto antes, já que o fungo se aproveita rapidamente dos ferimentos recentes.
Em períodos de alto risco climático, o intervalo entre aplicações deve seguir a bula do produto e a orientação técnica regional.
Antes da definição do produto e da dose, é indispensável consultar a bula e as recomendações vigentes no Agrofit (Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários), do MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária), para a cultura do café.
Manejo nutricional e práticas culturais como parte do programa preventivo
O manejo nutricional é parte integrante da estratégia contra a phoma, e não apenas um complemento:
- Cálcio: é constituinte da parede celular e contribui para reduzir a suscetibilidade dos tecidos ao fungo.
- Potássio: em doses equilibradas, contribui para reduzir a intensidade da doença. O excesso pode prejudicar a absorção de cálcio.
- Nitrogênio: o excesso estimula a formação de tecidos jovens e tenros, mais suscetíveis ao fungo. Por isso, a adubação nitrogenada deve ser equilibrada.
- Boro: a nutrição equilibrada em micronutrientes também é importante. A deficiência de boro, inclusive, gera sintomas que podem ser confundidos com a mancha-de-phoma.
Além disso, práticas culturais, como a implantação de quebra-ventos, reduz a exposição da lavoura aos ventos fortes, especialmente em áreas altas, em lavouras novas e em talhões expostos a frentes frias.
Monitoramento e tomada de decisão
O monitoramento constante é o que sustenta a decisão de intervir no momento certo. Recomenda-se:
- Inspeções periódicas, , intensificadas em períodos favoráveis, com atenção às folhas novas dos ponteiros, às brotações e às rosetas florais do terço superior da planta.
- Acompanhamento do histórico e da previsão climática: a previsão de frentes frias, geada ou granizo deve orientar a programação das aplicações preventivas.
- Definição do critério de intervenção: a presença de lesõesnas folhas amostradas, associada a condições climáticas favoráveis e ao histórico da área, justifica a intervenção, conforme a orientação técnica regional.
- Registro em caderno de campo, anotando data, produto, dose e condição climática de cada aplicação, informação essencial para acompanhar o resultado do programa ao longo das safras.
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Perguntas frequentes
1. A mancha-de-phoma ataca cafeeiros saudáveis, sem nenhum ferimento prévio?
Sim, principalmente em tecidos jovens, como brotações, folhas novas e botões florais, sob temperaturas amenas e molhamento foliar prolongado. Os ferimentos causados por ventos fortes, granizo e geada facilitam a infecção e tornam os surtos mais severos.
2. Como diferenciar a mancha-de-phoma da cercosporiose?
A cercosporiose costuma ter centro cinza mais definido e halo amarelo evidente. A mancha-de-phoma apresenta lesões escuras e irregulares, que começam pelas bordas das folhas novas e provocam encurvamento. Em caso de dúvida, a confirmação em laboratório é o caminho mais indicado.
3. O que é a seca de ponteiros e qual sua relação com a phoma?
É a morte da extremidade dos ramos causada pela evolução das lesões de phoma em cancros. É um dos sintomas mais graves da doença, porque compromete a capacidade produtiva do ramo nas safras seguintes.
4. Após uma geada ou chuva de granizo, qual é o momento de aplicação do fungicida?
O ideal é agir o mais rápido possível, já que o fungo coloniza o tecido ferido rapidamente. O intervalo e a dose devem seguir a bula do produto e a recomendação técnica regional.
5. Nutrição realmente ajuda a prevenir a mancha-de-phoma?
Sim. Estudos em mudas de cafeeiro mostraram que o suprimento adequado de cálcio e potássio reduziu a intensidade da mancha-de-phoma, enquanto o excesso de nitrogênio a aumentou. A nutrição, porém, complementa o controle químico e cultural e não o substitui.


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